segunda-feira, 9 de maio de 2016

São os olhos que entregam.

Oi Kaco, to com saudade. Te amo. Li esses dias um email que tu me mandou há um tempão e eu vi o nível de desespero em querer falar comigo de novo! Não imaginava que era tão querida, sempre imagino que estou incomodando alguém. Tu também sente isso as vezes? Por exemplo, eu amo meus professores, e no final da aula eu sou sempre aquela pentelha que fica pra ficar conversando com os professores, mó ridícula. E eles são simpáticos ne. Depois bate a bad do tipo 'por que eu fiz isso? poderia ter ficado sem ter sido tão ridícula". Sinto isso sempre e as vezes contigo, mas lendo esse e-mail hoje, nossa, fiquei passada. Você não se acha em todo canto. Acho que vou te amar pra sempre Kaco. Crescer é uma desgraça. Acho que tenho um problema horrível que me apaixono por quase tudo, tenho o coração absurdamente aflito e querendo tudo... quando vou ver de verdade não sobra pra quase nada.

Não sei descrever bem como estou agora. Crescer é o desvairar da vida. Tudo muda.
É difícil conter o cinza do tempo.


Mas também tenho um problema horrível de ansiedade, como sempre te disse, acho que disse, a dor é algo desesperadamente físico. A saudade é algo maravilhoso, a gente pode ler Clarice e lidar com eles, mas de algum jeito agora eu sempre incluo algumas possibilidades que me deixam muito ansiosa. Por exemplo, quando sinto saudade de alguém penso logo na possibilidade de aparecer na minha frente, de repente. Quer dizer, eu estava contente eu estudar as pessoas, em ler mais a fundo o que estava ali, em dar atenção ao que eu tinha no momento. Mas, antes eu não tinha vendido minha alma para um capeta chamado burguês/patrão/salário. É uma desgraça.

Eu vendi minhas palavras.
Por isso o Kaco quase não respira.

Por isso te procuro em todo mundo. Sempre fico muito frustrada porque nunca acho ninguém com o teu poder de abstração, de dar valor e de não ignorar, de perceber, de ter um tempo, de querer, assim como eu, dar significado a alguma coisa. Por que as coisas precisam ter um significado? Por que a gente é tão necessitado disso? Quer dizer, é como se agente estivesse querendo colocar um adjetivo bonito naquilo que a gente faz. Eu quero ser professora, quero ser professora por causa da honra. Acho que quando a gente conhece outras pessoas a gente sente falta um do outro, sente falta do outro nas outras pessoas. Ninguém fala com as tuas palavras, ninguém sabe fazer isso. Sabe quando você se depara com algo muito maravilhoso... do tipo, um dia fui na exposição da unifor e quando entrei numa sala tinha uma tela enorme passando a entrevista da Clarice, meu coração parecia que ia explodir. Com você meu coração explode e parece normal, porque é normal. A lerdeza dos meus batimentos todos os dias me deixa totalmente doente.  

Também nunca encontrei, nem tenho esperança de encontrar, alguém como você. E dessa vez, não estou me referindo a minha ciência, mas a minha poesia. Não há poesia como a tua, em ninguém, nem em sombra ou clareza, ninguém. Nada. Essa tua poesia sempre me inspirou, lembro-me, ainda, de a única coisa que conseguia dizer de teus textos era: intenso. Porque os são, até aqui, quando o pragmatismo nos obriga a sermos "normais", rápidos, secos. Tu ainda falas com poesia.
E isso me toca verdadeiramente. Ultimamente, acho que só tenho sido Kaco com você, por você.
Ninguém entende o mar.
Ninguém entende o que passamos navegando.
Há nesses dias um pássaro negro que arranha meu coração. Não por querer sair, mas por querer machucar.
Nada o apetece fora de mim.

Exatamente! Acho que sempre fico frustrada porque queria poder falar algo profundo com alguém, mas são todos muito superficiais, as pessoas vão embora muito rápido. É um vai e vem desgraçado. Eu queria poder dizer com calma pra alguém alguma coisa que com certeza, um homem com um nome tão difícil teria que dizer?, é algo de forma mais livre possível que eu prendo, por que eu espero o sim de alguém pra falar alguma coisa? Ninguém sabe que está navegando, ou as vezes a gente esquece, as vezes eu acho que encontro um companheiro, mas as pessoas de mares mais profundos parecem estar muito cansadas pro meu papo de quem aprendeu a navegar agora. É horrível saber que há algo "arranhando" você. As vezes meu coração é igual ao seu. Eu sei que é estar machucada. Não temos controle sobre nosso corpo, não dá pra dizer quem entra e quem sai e isso é um desgaste horrível. Eu não sei você, mas eu abro meu coração pra quase tudo e a decepção não é porque quem entra quer bagunçar, mas é que ngm entra. Há intensidade demais a nossa volta. Esses dias descobri que existe uma mão em nosso ombro, é o próprio medo, que está lá o tempo todo. não temos controle nenhum sobre nosso corpo. Não entendo porque o prazer que o corpo me dá nunca chega perto do prazer que alma produz. Nós somos fracos demais. Também não consigo entender como as vezes nos sentimos tão vazios. A gente se vende por quase nada.
E os símbolos?
Não há que entenda os símbolos. Talvez... Talvez ninguém entenda por ninguém conseguir ver. Tenho chegado a conclusão de que sou obscuro, abissal. Não por profundidade, não penso que sou o abismo dos tempos, mas por resguardar a escuridão. Por isso ninguém tenta me seguir até o fundo. Talvez perceberam minha escuridão
Os olhos não mentem. Veja! Mesmo nas sandices de Bentinho, a epifania da traição de sua amada, revelou-se nos olhos. São eles que nos entregam. 

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