quarta-feira, 13 de maio de 2015

Todo artista tem um auto retrato

A crise de fazer vinte anos é horrível. Eu queria voltar no tempo e poder me encontrar comigo mesma de um tempo atrás. Lembro do dia em que, chegando em casa num dia de férias, me preparando para passar uma temporada sozinha, eu liguei a tv e comecei a ver tudo o que é sólido. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Na época eu criei esse blog porque eu senti que, sinceramente, eu jamais seria a mesma Brunna. Criei esse blog justamente porque eu via turbilhão dentro de mim começar a se formar. Eu estava, como se diz, em polvorosa, pronta pra explodir. A descoberta de mim mesma, à moda da Clarice, veio em tempo certo. Eu tenho certeza que aquela foi a melhor versão de mim porque eu estava em total, digo t-o-t-a-l, sintonia comigo mesma. Todas as coisas a meu redor eram apenas uma extensão do meu eu, que é coletivo. 

o amor pelo Kaco, a paixão pelo professor, as lágrimas que eu derramava ao ler poemas - eu achava que isso não fosse capaz. Lembro de todas as vezes que escrevia aqui e começava a chorar, não de tristeza, mas porque perceber a minha grandeza e as minhas capacidades me assustavam, eu não sabia do que era capaz. Eu não sabia que havia recebido um dom de escrever aquilo que ninguém, no mundo seria capaz. Ninguém, nem eu mesma, entende porque eu entrei na faculdade de letras, mas onde mais? Eu sou rainha e escrava das palavras, apaixonada pela minha própria língua.

Eu mesma me construí e escolhi quem faria isso. E hoje eu morro de saudade daquela Brunna. Eu queria hoje ter um sonho e nele eu teria a bênção de estar com a Brunna por no mínimo vinte minutos, eu morreria pra ouvir todas as coisas loucas que ela tinha pra falar, eu estaria igualmente entusiasmada quando ela me contasse como o mundo estava se mostrando pra ela e como ela se percebeu dentro disso. Eu adoraria poder dizer a mim: você é a melhor de todas essas coisas, porque esse mundo em que você existe é totalmente seu. Sempre me incomodava de sempre começar qualquer texto com "eu", porque estaria na cara que eu era egoísta. Mas a minha vida é uma ode a mim. 

Hoje, chegando do trabalho, eu senti aquilo na garganta. Quem mais que a Tereza pra me explicar? E assisti um episódio de Tudo que é sólido, um muito engraçado, um que me matou de saudade. E a saudade ela só serve pra isso mesmo, pra matar a gente, principalmente a mim que nasci pra morrer de amor.

Vou começar a ler um livro que "ganhei" de alguém muito especial, mas que nunca foi registrado. Fica agora eternizado nessas entrelinhas. É da Lygia Fagundes Telles e se eu bem sei ela é uma outra Clarice, isso basta. O título do livro, que é de contos, é "mistérios". A capa é uma pintura de Pierre Auguste Renoir. Renoir! !  !  ! Encontrá-lo agora foi como encontrar pela primeira vez o amor da sua vida com o qual você sonhou inúmeras vezes, adorando-o com a devida devoção.