15 abril 2013

Rawr

Quando o Júlio ficou parado diante da vitrine do pet-shop, extasiado, babando, olhando pros cachorrinhos com uma cara de realização eu não me contive, e embora eu soubesse que ele não estava pronto pra ouvir ensaios, eu tive que falar. 
- Eu acho muito feio que gosta de animais mais do que pessoas. É. É feio, é feio você dar muito mais atenção pra um ser que não sabe nem quem é você enquanto deixa alguém (talvez até apaixonado) esperando por um sinal. É feio como as pessoas gostam de sentir inferiores, a qualquer coisa. Não que eu diga que cachorrinhos fofos sejam piores que nós, não, nunca, são bem bonitos, mas é que o ser humano tem uma sensiblidade tão bonita, tem aquela coisa de união e química. Me entende?
- arram. 
- Júlio, sinceramente, não é bonito olhar nos olhos vagos de um cachorro, dizer eu te amo e não receber resposta alguma. "Se ele lamber a sua cara será como um beijo", bem, na verdade eu acho que não éjá que beijo envolve tanta carícia; nunca haverá mãos cruzadas, nem beijos na testa de carinho. Será sempre a ausência de troca, porque você se dá inteiramente e não recebe muito, talvez para alguns o fato de se dar já seja a troca, mas se dar pra quem te entende é melhor. Eu não digo que é feio ter animais, mas é feio tratá-los como nós nos tratamos, como se eles fossem dos nossos. Certamente os gatos têm as carícias da sua ordem, os cachorros as deles (e talvez por isso é um descato unir cães e gatos, justamente por o carinho deles não bate), e nós os nossos. 
- Acho que é melhor não perguntar o que você acha sobre passarinhos. 
- É, claro que não. Isso envolve todo um procedimento de liberdade. 

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