segunda-feira, 1 de abril de 2013

Bolinho


- Tá doendo, ele disse.
- não, nem começou a doer de verdade, ela disse
- segura minha mão, ele disse
- seguro, ela disse segurando a mão
eles ficaram calados por um tempo, segurando a mão do outro
- a minha mão tá suando, ela disse
- se eu apertar tua mão dói menos, ele disse
- mas eu não me importo, ela disse cruzando os braços e fazendo uma cara de birra
- por favor.
- não
- por favor, não diz que "eu avisei". Mas você também disse que eu deveria me atirar
- Atirar, não "se" atirar.
- talvez eu mereça um copo d'água.
- Uma refeição inteira.
Ele saiu, alegando que seria melhor comer, beber alguma coisa e voltar depois.
- vai estar aqui quando eu voltar? ele disse
- Sempre, ela disse.
Horas, muitas horas depois ele voltou trazendo um pacotinho, como aqueles que se levam pra casa quando sai de um restaurante e manda embalar o que sobrou. Não, não era esse pacote, era o pacote de alguma cafeteria, doceria, ou qualquer pequena loja que tenha um pacote cor-de-rosa de material reciclado.
- o mar está mais valente hoje? ele disse
- esteve valente desde que você saiu, ela disse, trouxe alguma coisa pra mim?
- sim, ele disse estendendo o pacote pra ela, eu tive que trazer porque é a sua cara.
quando ela abriu o pacote e viu um bolinho com cobertura azul e estrelas coloridas sobre ela ela sentiu todo o corpo tremer porque aquilo era durante muito tempo o que ela mais queria comer.
- como você sabia?
- Morde, pra que eu possa te mostrar.
ela mordeu,
- olha, aqui dentro tem a melhor parte, um recheio de brigadeiro (mas o mais gostoso que eu já provei na vida), ele é leve e com um gosto marcante; misturando com o bolo, que é de longe o mais molhadinho e leve que você vai provar na vida, acontece uma explosão de sensação, porque o bolo não é muito doce e não se torna... você sabe... injuento. A cobertura, a minha melhor marinheira, essa você vai amar, é de um azul sem par e não feita de glacê porque eu sei que você odeia, mas de algo que eu ainda não sei o que é, parece um segredo, sabe? É o toque especial do bolinho, porque quando você morde é meio crocante, mas fica macio, sabe? É uma sensação de força e leveza comer essa cobertura. E ela não é muito doce, pelo contrário, tem um toque azedinho e se você comer até o fim, com bolo e recheio, vai ver como vale a pena a caretinha no início. E as estrelas, bem, as estrelas são fofas, só isso.
- dói menos agora? Eu me preocupei, sabe... me arrependo de não ter segurado tua mão.
- tudo bem, já marquei uma operação. Vou tirar isso de mim a força e não vai dor nunca mais. Mas de qualquer forma, vou querer segurar tua mão pra que a cicatriz não doa muito e que com a sua presença ela cure quase que automaticamente.  o que é isso que a gente sente um pelo outro, hein?
- morde o bolinho, de olhos fechados, se concetra em tudo que tu me disse.
ele mordeu. sorriu enquanto mastigava levemente e naquele momento ele entendeu.
- isso, ela disse.

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