12 julho 2012

Dança de viagem


Escrito para mim há algum tempo, mas como tudo que ele escreve é atemporal, me deu uma vontade boa de ler mais uma vez. Eis aqui, para sempre guardado, a carta de um navegante que eu amo demais. Porque amar é melhor que ser amada.

Elizabeth dançava radiantemente, seus cabelos cacheados voavam ao vento como uma cortina, e um sorriso tão iluminado quanto o sol forte – ou até mesmo sua dança – se exibia entre a cara pintada com sardas.
                - Vamos Louis! – Dizia-me ela me puxando para dançar também – Pare de pensar em trovas, e venha cá dançar comigo.
                Todos do caís pararam para nos olhar, e o mastro ao mando de Elih, começou a tocar uma música animada, que fazia até meus músculos de um velho adiantado, quererem remexer-se juntamente com ela.
                - Só essa dança, vamos lá, você me deve Louis.
                Abri um sorriso de valer a pena, e sem delongas a acompanhei na dança. A música de Elizabeth era contagiante, inundava meu corpo sem pedir permissão, mexia comigo e bagunçavam meus pensamentos, me deixava quente e feliz.
                - Desculpe-me novamente por minha ausência – dizia enquanto dançávamos sem parar – Eu sei que as culpadas são essas minhas viagens às fontes, mas é preciso sempre navegar.
                - Não fale nada agora Louis, aproveite, dance, pois sempre que falamos algo, surge um perigo, por isso, fiquemos tranquilos nessa dança, e aquietemos nossas palavras já tão gastas. Já que depois você irá viajar novamente, e só Deus saberá quando iremos nos ver outra vez.
                - Logo – prometi.
                - Por favor, não me faça mais promessas que não pode cumprir, apenas venha, dance, e me deixe inteiramente feliz.
                - Mas eu sei que venho logo, não se preocupe.
                Elih gargalhou jogando a cabeça para trás, os cabelos cortinosos novamente voando ao léu, seus dentes juntos e belos – pois esses eram sim, ela gostando ou não – a mostra, sem ao menos cessar com os passos dançantes.
                - Ai Louis, você ,mais do que ninguém, sabe o quanto imprevisível pode ser um Leão, indomável, viajante, sedento... Não me prometa que voltará logo, porque assim, ficarei esperando, e esperando, esse barco voltar novamente a ancorar neste porto. Já me vejo até comendo feito uma louca lúcida.
                - Não há nada de errado em comer moça!
                - Nem em deixar de comer.
                Elih então parou de dançar, ofegando e soando. Parei de dançar também e a música se deteve, e ficamos apenas fitando os olhos.
                - Eu sei que você estará em boas mãos Elih – disse mansamente ajeitando seus cabelos do rosto – Aprenda o máximo que poder, pois a paixão é uma ótima matéria da escola da vida, mas disso já conversamos.
                Elih mordeu os lábios fazendo uma careta, e cruzando os lábios virou a cara.
                - O que foi?
                - Estou me controlando para não te fazer perguntas...
                - Tudo bem, esta é a hora.
                - Até onde você irá dessa vez, Louis meu?
                Parei para pensar em sua perguntar que nem mesmo sabia a resposta. Tal mar que estava prestes a desbravar, havia águas tão negras, e ao mesmo tempo tão brancas e na melhor – ou pior – das hipóteses, teriam águas geométricas, mas isso eram coisas para outras prosas.
                - Eu não sei – disse inseguro fitando o possível mar futuro – Talvez até onde meu bilhetinho da loteria me leve, contudo Elih, Escute-me, não me interessa o que você ache quanto a isto, pois eu prometo, prometo, que voltarei em sumo o mesmo.
                - Você sempre volta.
                Assenti levemente com um sorriso acanhado nos lábios. E então estávamos no caís, sem música, sem danças, falas ou trovas, nos restando apenas nossa despedida.
                Com um abraço duradouro, daqueles que mais parece que estamos tentando arrancar um pedaço de quem está em nossos braços, para se colocar em nosso peito, dissemos mil palavras que ainda restavam a ser ditas, mas que apenas nossos peitos colados poderiam dizer.  E dando de costas um para o outro, estávamos sim, podres de felizes, esperando até que novamente nos reencontrássemos em um caís do barroco.
Kaco
               

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