quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Dia de finados.

Ele ouviu tocar a campainha e no caminho até a porta foi se maldizendo por ter instalado aquela campainha na porta, não gostava nem um pouco do barulho que ela fazia. Seria muito mais agradável se ao invés de fazer triiiim ela tocasse Tchaikovsky. Mas só de pensar que eu abrir a porta veria o seu amor isso daria a ele uma alegria que humanos não têm, ele não via mais uma porta, mas um verdadeiro portal para a felicidade. 
Ele abriu, olhou para a moça com um sorriso no rosto e não ficou desapontado por não ser quem esperava que fosse, mas estava até feliz em ver aquela mulher com cara de menina. Segurando a bolsa com as duas mãos e com casquete no cabelo, mesmo ele sabendo o que era aquilo, ele achava bonito. 
- Nossa, que saudade! 
Ela permanecia calada. Ela era uma Matrioshka das mais rebuscadas e cuidadosamente desenhada por indianos calados. Ela era calada, ela era daquelas que você precisa cativar para abrir camada por camada, até chegar na última e tê-la toda. Mas seu sorriso falava muito, então ela sorria, olhando para ele, que a fez sentir tanta saudade. 
- Entra. É, hoje é dia de finados, né? Engraçado você vir me ver. Ele riu e dessa vez ela não sorriu. 
- É bem por isso que eu vim ver você. 
Ele nem ouvia o que ela dizia, ouvia, mas não fazia diferença. Abria a geladeira e o armário pra ver o que poderia dar a ela. Mas que costumes são esses de dar comida a quem chega na sua casa, ele pensava enquanto não via nada para dar a ela, que sentada observava o apartamento dele, que tantas vezes ela havia visto, mas nunca percebera que estava tão claro. 
- Desculpa, mas eu não tenho nada pra dar a você. 
- Não precisa, ela finalmente falou sorrindo, eu não vou demorar. 
Ele sentou junto a ela, tomou sua mão e beijou-a, como sempre fizera. Abraçou-a e falou contra seu ombro "estava morrendo de saudade". 
- Exato, morrendo. 
- O que você tem pra me dizer?
- Eu vim só te ver, visitar. Hoje é dia de finados, as pessoas saem para ver os mortos. 
- Mas eu...
-Não, pra mim você morreu. 

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