11 outubro 2011

A troca.

- Você sentiu muita saudade?
- Sinto. 
- Mas nada que o amor tão grande que a gente sente possa superar, certo?
- Quase. Quer dizer, eu gostava muito de um livro (sabe aquele?), mas ele não me parecia mais tão bom já que depois de ler eu não teria como contar o que havia acontecido pra você. 
- Você parou de ler? Por causa disso? 
- É, da mesma forma que eu não consigo me apaixonar mais, já que não vale a pena porque o bom de estar apaixonada pra mim é poder sentir todas aquelas erupções vulcânicas e tornados dentro de mim, para que depois você viesse me explicando tudo e terminando com "mas eu gosto mesmo assim". 
- Mas é absurdo viver sem paixões.
- Mas uma paixão ainda ficou dentro de mim, mas essa você jamais saberia explicar, a menos que sentisse. Mas aquela canção que eu gostei muito antes de você adorá-la, aquela que vem nos invadindo de mansinho, eu não ouço mais; é que essa parte "Chico Buarque" que havia em mim você levou quando ficou em silêncio. 
- Olha, não ouvir Chico é perda de tempo.
- Não, eu acho que não. Mas eu não senti muita coisa. 
-
-
- Você disse que traria um livro, dos bons, cadê?
- Aqui. Não é um presente, é como uma moeda de troca. Eu vou dar você para você mesmo, porque esse livro fala muito mais de você do que nós mesmos. Você vai se fascinar ao mesmo tempo que se entediar, passando a...
- O que eu preciso dar em troca? 
- Na verdade, devolver. Aqui seu livro, agora eu quero a minha parte, a minha parte gigante que você levou de mim quando foi se calando devagarinho. Eu quero a minha parte, que nem aquela viciada que havia repartido a sua droga com o outro achando que não faria falta. Mas viciado não têm controle, é o corpo pedindo, certo? Eu agora preciso de mim mesma, preciso das minhas paixões, das canções e da literatura que está ai com você. Eu quero a minha parte, kara.
- Eu não vou dar, você é minha, essa "parte" está em mim e é minha, se quiser vai ter que ficar. Sendo assim, não vou trocar nada, fica com o livro; eu não preciso me conhecer se pra isso eu vou ter que te perder (não devagar, mas subitamente e ferozmente).



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