sábado, 13 de agosto de 2011

Gregório

Antes de dormir ficava pensando. Não pensava nunca no dia que teve, mas no que faria no futuro. Em seus pensamentos o dia de amanhã seria exatamente assim:
Ela estaria séria, sentada em uma cadeira minúscula, observando apenas. Iria olhar lentamente cada detalhe daquela sala minuciosamente como sempre faz: as paredes mal pintadas de marrom; as plantas secas, porém envernizadas, no canto das paredes escuras; uma mesa de vidro no centro da sala decorada por inúmeros bonecos também de vidro; as cortinas com desenhos indianos. Nada fazia sentido, de certo ela seria a "coisa" mais estranha dali: baixa, de cabelos excessivamente crespos e com um busto enorme.
Mas era a janela do apartamento vizinho que a encantaria: as paredes mudavam de cor, simplesmente por causa da luz da tv que piscava, mas fazia um efeito fascinante; as cortinas azuis; os detalhes góticos no sanca do teto; o lustre cor de ouro e com centenas de lâmpadas; alguma coisa cinza, poderia ser um sofá ou uma poltrona, mas seria muito melhor do que sua cadeira de acrílico; tudo ligado, combinando. Na verdade tudo conversava naquele apartamento, mas o mais brilhante seria aquilo pintado no quadro suspenso por duas cordas: um leão extremamente selvagem , em cima de uma rocha. Uma cena triunfante. Se não fosse por sua miopia ela poderia ver os animais em volta, mas ela só viria o leão, onipotente. A imagem emoldurada em ouro; de qualquer forma triunfante.
Sentiu um espanto tremendo quando parou para pensar porque estava tão só naquela sala escura. Piorou quando se perguntou porque não estaria naquele apartamento tão correto, olhando aquele quadro. Perdeu-se em seu medo e suas perguntas e na saudade que sentia do seu próprio leão, não um preso a um quadro, mas um realmente triunfante e que conseguia, sempre, mudar o tom de tudo.