14 agosto 2011

1920 - Fernando.

O olhar. O bater dos sapatos. A música alta. A luz forte. As cores vibrantes. O que é preciso para um baile. Era o que eles tinham.
Eles não queriam dançar, queriam matar um dor que já os possuíra e com força. Passaram tempos dançando, fingindo que não tinham o que dizer e que estavam felizes em apenas mexer os pés. O silêncio mais do que tudo falava, o olhar fixo um no outro provava que eles se queriam e deles eles seriam.
- Eu preciso dizer alguma coisa?
- Não.
Ele encostou a cabeça dela em seu ombro e a guiou. Depois pôs os pés dela sobre os seus para que ela aparentasse ser da altura dele. Ele foi a levando, dançando como se um pai ensinasse a filha como se fazia. Ela já sabia e queria apenas estar ali, mais nada. Uma felicidade tão forte os tomava que eles poderiam morrer, bem ali, mas morreriam deveras felizes.
- Eu não posso mais.
- O que?
Eles falavam no ouvido do outro baixinho e mesmo com toda o barulho eles se ouviam bem.
- Ficar sem ver você durante dias. Meu pai falou que eu não devo mais ter aulas de piano.
- Eu também sou professor de poesia, de música, de canto, de arte e até literatura. Peça para que eu te ensine sobre William Shakespere. - Ele sussurrava bem de leve ao seu ouvido, com um sorriso enquanto continuavam dançando.
Ela de olhos fechados eternizava em si os detalhes daquele momento.
- Pedirei.
- Quando vais falar para seu pai sobre nós? Eu não posso mais aguentar ter que ver você apenas em alguns dias. Eu quero acordar com você e ver você andando sem esses espartilhos por toda a nossa casa.
- Calma, lembra de termos combinado? Não esqueça disso. Eu não posso me casar com você enquanto não tivermos experiência para isso. E depois? O que faremos nós? Eu não sei fazer muita coisa.
- Serás minha mulher.
Toda a preocupação que havia fora embora. Aquelas palavras entraram nela como se fosse mel descendo por sua garganta. Com mais força ele pressionou-a contra seu corpo e encostando seus rostos ele se sentia o homem mais feliz do mundo.