quinta-feira, 28 de julho de 2011

Antônio.

O bruto e o delicado. São as palavras que me definem, as palavras que você usou para caracterizar o barroco. Barroco surgiu em meio a tensão e desequilíbrio total, como uma fuga, um escape. Cheio de metáforas, antíteses, hipérboles e alegorias. Um conflito vivo entre o terreno e o celestial, o pecado e o perdão, o material e o espiritual: o que atormenta profundamente o homem, indiferente dos séculos. Principalmente (como algo parnasiano) o culto à forma:
"Na sucessão encontrava-se o máximo da beleza, que o movimento explicava a forma. (...) e na sucessão também se encontrava a dor, sim, porque o corpo era mais lento que o movimento de continuidade ininterrupta."
Clarice Lispector - Perto do coração selvagem


Não que uma escritora moderna possa explicar algo barroco (ou parnasiano), mas é essa mistura constante que caracteriza o que eu vim relatar para você. A paixão. É só nisso que eu penso, desde que me vi no espelho e vi minha forma agora perfeita: como se eu fosse uma poesia muito bem metrificada e absurdamente correta. Eu sou isso. Eu não escrevo como uma Lispector, mas se você me disser que sim eu aceito de peito aberto essa comparação. Eu sou barroca, entende? Eu sou essa antítese constante que você mesmo colocou: o bruto e o delicado. Um conflito absoluto de pensamentos e palavras. A matéria sólida (tudo o que é sólido pode derreter) e as complicações da alma.

Você deu uma aula de mim.

Você dá aula de mim todos os anos para várias pessoas diferentes e nem sabia disso. Eu grudei em seu pensamento, porque, como esquecer o que já se sabe? Então, hoje, eu senti mais uma vez minha alma querer sair de mim por ter feito essa descoberta. Por eu saber que sou barroca e que assim como eu a paixão também é. Então sou no mínimo tentadora: a paixão > o barroco . Eu nunca fui a melhor aluna em literatura, mas algo está me fazendo viver essa interpretação de pensamentos e sensações.
"Para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não pode ver por falta de luz. (...) Que coisa é a conversão de uma alma senão entrar um homem dentro de si, e ver-se a si mesmo? (...) O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina, Deus concorre com a luz que é a graça; o homem concorre com os olhos que é o conhecimento. (...)"
 Padre Antônio Vieira - Sermão da Sexagésima

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