domingo, 24 de abril de 2011

Uma queda, um sonho, uma vida.

- Eu tive sonhos.
- Ah! Nem vem, nem vem que hoje eu não me sinto no ofício de te ouvir. Hoje é hoje e isso já é demais?
Eu ria, apenas para não explicitar minhas angústia: eu queria vê-lo sorrir e agora não podia. Ele parado ali parecia que olhava pra algum lugar, procurava tanto alguma coisa naquele infinito: eu me perdi no infinito dele e não me achei mais, não mais. Ulisses me olhou de volta, pela primeira vez, olho bem calmo como se quisesse retirar a grosseria. Mas a grosseria (ainda em palavras) é como o ovo: "ovo visto, ovo perdido".
- Tudo bem, desculpa, fala ai do seu sonho.
- Não foi apen...
- Sei, os seus sonhos. Saiba que eu vim aqui sabendo que ouviria esse tipo de coisa, então pode falar.
- Eu sonhei que ia te contar meu sonho e você me falava que o dia teria te machucado demasiadamente, mas você não me explicou o motivo e eu fui embora, sabe?
Ele sorriu como se aquilo dissesse, bem alto, "eu não acredito".
- Eu magoei. Foi isso. Eu jamais imaginaria que isso aconteceria, quer dizer, imaginava, mas não sabia que faria, entende?
Assenti com os olhos, só com os olhos e ele entendeu que sim.
- Mas se foram através de palavras, e não gestos, você não tem culpa, certo? Eu não me importaria, nem um pouco.
- Claro que sim. Talvez eu tenha me machucado mais do que ela.
- Ela?
- Filmes de terror, pode ser a palavra-chave. Então, eu me sinto mal por ela: a dor, pequena que seja, que ela sentiu eu senti em dobro por ser nela. Entende?
- Como se tivesse sido você que a empurrasse, então ela cairia e se machucaria: a dor não seria da queda, mas de você ter empurrado. Em você, a dor não seria da queda, mas de ela ter se machucado: ela.
- Entende.
- Posso contar meu sonho? Se você quiser ouvir, porque eu acho que nos seus pensamentos há apenas essa situação.
- Conta ai.
- Você vai ouvir?
- Eu disse que sim. Fale. Eu disse fale com "e" no fim, não com "a", então eu ordeno que diga.
- Ele me apareceu de novo, não na forma humana, mas em poesia. Isso é horrível, me consome tanto.
- É um sonho, Lóri.
- Você deveria saber que sonhos para mim são vivos. Vivos. Assim como as palavras, porque me revelam, são meus pensamentos. Minha alma.
- Então, continue.
- Sim, era como se ele fosse meu, de verdade. Mas no sonho. Como se aqui, na vida real, ele fosse uma coisa e no sonho outra. O professor da vida real não quero, mas o dos meus sonhos, aquele que me leva ao teatro e olha pra mim dizendo: "é, você me surpreenderia se". Ele me põe em uma incerteza tão grande que eu o amo por isso. Assim como eu amo você por não ter certeza de você.
- Você é tão confusa.
Eu ri, dessa vez eu tive mesmo vontade de fazer isso. Imaginei nos pensamentos dele (uma estante) cheia de livro e eu indo lá e gritando e quebrando e rasgando e destruindo e fazendo ele me olhar daquele jeito pedindo-me para parar.
- Eu não paro. Até que falem que eu causo orgulho.
- Você ficou mexida com isso? Sério?
Afirmei com o polegar, meu único sinal verdadeiramente verdadeiro.
- Ela te causa orgulho por ela não saber de nada, mas ela inventa teorias que convencem. Eu não acredito nela, nem um pouco, mas o fato de ela saber usar palavras tão bem faz com que cause isso. Nós precisamos crer. Precisamos não ver apenas.
- Eu não mudo de opinião, sabes disso.
- A verdade é que, como já disse Oscar, algumas pessoas vivem, outras apenas existem. Eu busco o meu lugar entre essas duas com meus sonhos. Talvez eu não seja o orgulho de muitos por não me entenderem, mas eu não me importo. O meu professor sorria muito quando via minha nota máxima.
- Eu continuo te amando, Lóri. 

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