26.5.20

A modernidade para Baudelaire


Para entender a moda é imprescindível compreender sua relação com a modernidade. O crítico Hans Robert Jauss, em seu ensaio "A Estética da Recepção", define a etimologia da palavra "moda" ("mode" em francês) como derivada do latim "modo", que também deu origem ao termo "modernus", que significa aquilo que é "desse tempo", "agora mesmo".

Charles Baudelaire foi um poeta e crítico de arte francês, responsável por criar uma das mais importantes teorias sobre beleza e modernidade. Em seu ensaio de 1863, "O Pintor da Vida Moderna", ele analisa as pinturas de Constantin Guys sobre a moda e cenas parisienses, e percebe as constantes mudanças nos estilos de roupas e adornos. Os desenhos de Guys eram ao mesmo tempo artísticos e históricos, capazes de representar a ética e estética de um período.

Na época, Baudelaire e outros artistas como Monet, Delacroix e Coubert (nos primórdios do impressionismo) tentavam conquistar seu espaço com sua arte inovadora, se impondo contra os padrões estéticos e ultrapassados da Academia, preocupada sempre em reproduzir uma beleza composta. Baudelaire viu nos desenhos de Guys uma oportunidade para elaborar uma teoria revolucionária sobre a modernidade, que negasse o interesse anacrônico da Academia em representar o passado.

Para Baudelaire, modernidade pode ser definida como "o transitório, o fugaz". O que é novo possui um valor por si só, portanto a representação do contemporâneo deve fazer parte da criação artística. Para representar as cenas efêmeras da vida burguesa era preciso velocidade, exigindo inclusive uma rapidez de execução pelo artista. Baudelaire deu aos artistas uma nova perspectiva, o empurrão necessário para que eles saíssem de seus ateliês e fossem às ruas, como suas moderníssimas bisnaguinhas de tinta-óleo. 

Baseando-se no conceito platônico de beleza, caracterizada pela abstração, atemporalidade e pureza, Baudelaire acredita que o objetivo do artista (e do designer de moda) é encontrar o que pode ser salvo e perpetuado desse efêmero nesses itens de vida curta, incluindo aqui as roupas. O artista deve encontrar na vida moderna, que é transitória, algo eterno. 

"Poucos homens são dotados da capacidade de ver; menos numerosos ainda são os que possuem o poder da expressão... é muito mais fácil decidir de maneira peremptória que tudo na vida moderna é absolutamente feio que se devotar à tarefa de destilar dela o misterioso elemento de beleza que pode conter, por mais ligeiro ou mínimo que esse elemento possa ser"

Baudelaire percebe que a moda é o modelo inicial que serve de essência para os demais sistemas em que podemos observar o fenômeno da modernidade, pois ela se baseia, fundamentalmente, na constante mudança dos gostos em comum. As roupas são um produto da estética de um período e, ao mesmo tempo, uma manifestação de uma estética eterna ideal. A beleza moderna é definida pelo balanço entre essas duas características. 

Atualmente, a definição de Baudelaire é de certo modo conservadora, pois apesar de buscar inovação para se desligar do tédio da Academia, se baseia na busca de uma beleza platônica, divina, pura e eterna. 

O melhor exemplo dessa teoria, nos dias atuais, é a Chanel (Dior e Valentino também são bons exemplos). A cada nova coleção ela representa o mundo moderno, absorvendo o espírito do tempo, capturando o que há de mais bonito e exprimindo-o em algo que é eterno. As roupas da Chanel, por mais modernas que sejam, serão sempre eternas. Você pode ver qualquer coleção (qualquer uma mesmo) e ainda vai ficar de boca aberta com tanta beleza, imaginando que pessoa sortuda veste esses looks.

25.5.20

Now the models all look insane

Tem uma cena no episódio 5 da primeira temporada de Handmaid's Tale que me marcou bastante [a série toda é marcante, estou só escolhendo uma cena entre todas]. Ela é convidada pra ir na sala do comandante e lá ela vê, depois de muito tempo, uma revista de moda. Aí ela diz:

I used to buy magazines like this at the airport. I read them when I got my hair highlighted.

Now the models all look insane. Like zoo animals. Unaware they're about to go extinct.

Posso estar sendo dramática e exagerada, mas é nisso que penso quando vejo revistas de moda hoje, quando vejo pessoas posando pra foto com looks de grife felizes da vida como se nada estivesse acontecendo, como não existisse um trauma coletivo que faz todo mundo ter pesadelos. 

A moda de Jacquemus

Esse texto é um resumo da entrevista do designer da grife Jacquemus para o curso "Understanding Fashion: from business to culture" do Institut Français de la Mode (IFM). 

A moda de Simon Porte Jacquemus é sua autobiografia. Ainda criança, no interior da França, criava saias para sua mãe com objetos da casa. Na adolescência foi muito inspirado pela tv e cinema e tinha muita vontade de representar papéis através das roupas, então tirava fotos e as compartilhava na internet. "Não havia Instagram, mas eu já tinha Instagram". 

Seu principal objetivo com a moda não é apenas criar roupas, mas contar histórias. Histórias simples de mulheres no sul da França. Uma mulher que pega seu carro e vai à praia. 

Logo que entrou na faculdade de moda em Paris Simon perdeu sua mãe. Ele saiu da faculdade e pensou consigo "Vá em frente Simon, realize seus sonhos e crie sua marca!". Com 19 anos abriu sua loja, com o nome de sua mãe, "Jacquemus", mesmo sem dinheiro ou contatos, mas pronto para tudo e com muita energia. Uma energia que era a mesma da sua mãe, a mesma de uma criança no interior querendo trabalhar com moda e com vontade de convencer pessoas. 

Então começou a gritar seu nome para a imprensa e as pessoas pensavam, "bem, parece que ele tem algo a dizer, mas isso é sincero? É útil? Tem significado?". Ele insistiu nisso e gradativamente as pessoas iam acreditando em sua marca. Ele acredita que na época havia um grande desejo por um designer francês. 

Entre suas inspirações ele cita os filmes L'effrontée (1985) com Charlotte Gainsbourg, L'Eté meurtrier (1983) com Isabelle Adjani e a diretora Agnès Varda; programas de tv mais populares como a novela Sous le soleil (1996); músicas de Serge Gainsbourg, Marie Laforêt e hits dos anos 80; o comerciais de Jean-Paul Goude, para Chanel especialmente; as pinturas de Picasso, David Hockney, Jean Lurçat e Paul Cézanne; os desfiles de Karl Lagerfeld. São imagens que criaram seu DNA, suas grandes obsessões. 

Sua única musa é sua mãe. Ela o inspira a transmitir não apenas uma imagem, mas uma energia, a oferecer algo que seja positivo. 

Em suas criações há algumas peças recorrentes, como a saia branca, que deve ser reinterpretada a cada coleção. A espontaneidade é muito importante, então ele cria o que tem vontade, seja uma coleção apenas com vestidos, ou só ternos. No entanto algumas regras precisam ser seguidas, para atender às necessidades de suas clientes. Por isso ele permanece atento ao mercado, fazendo um balanço com seu lado criativo. 

Para ele poucas coisas mudaram na marca, pois ele permanece fiel a sua mensagem de compartilhar boas energias, sendo sincero consigo, ouvindo a si mesmo, dizendo não. 

Ele diz não criar para celebridades, que elas não o inspiram necessariamente, mas reconhece que muitas celebridades são suas clientes e ajudaram a marca. E isso é ótimo. Hoje ser copiado pelas fast-fashion é algo bom. Quando era mais jovem ele não aceitava a cópia de suas roupas, modelos, o estilo de campanha, as locações… Mas então ele passou a pensar que ele tinha sorte por fazer parte de seu tempo, vestindo mulheres, por que sua estética comunica a muito mais pessoas no mundo além de suas clientes.

Quando perguntado sobre onde ele quer estar daqui a dez anos ele diz que espera que esteja feliz, fazendo coleções. Ser feliz é sua inspiração, não é sobre ser grande, nem famoso. “Acredito que minha geração está inclinada a isso também, ao seu bem-estar, ser capaz de dizer ‘não é isso que quero da minha vida, mas quero aquilo’. É isso que é importante de lembrar”

23.5.20

O que é "moda"?'

Esse e outros textos são resumos de estudo do curso "Understanding fashion: from business to culture" do Institut Français de la Mode (IFM), realizado na plataforma do FutureLearn. São resumos para estudo pessoal, analisando os temas abordados a partir da minha perspectiva. Ainda não sei qual será a frequência dos posts, mas eles serão frequentes 😁
Origem do termo: do francês "façon", que significa criar algo. 
Na obra "The Dictionary of Fashion History", o termo é associado a roupa e a mudanças constantes de estilos. 
Para Benjamin Simmenauer, "moda" possui três significados.

1. Indústria têxtil
2. Padrão de preferência de vestuário
3. Padrão de preferência em geral. Esse é uma extensão do segundo conceito, através da crença que qualquer coisa pode estar na moda, seja um bem de consumo, um animal ou uma ideia. 

Moda e modernidade
Para Elizabeth Wilson, moda tem como característica principal a mudança contínua de estilos. Moda é mudança. "É um sistema que põe valor ao que é novo apenas porque é novo". Moda não é um estilo, mas um processo em que um estilo substitui o outro, de modo que nenhum estilo pode ser muito durável. Por essa razão a moda está relacionada ao tempo, especialmente com a contemporaneidade. 

Moda e socidade
Moda também pode ser um mecanismo social. Um grupo de pessoas, em dado período, concorda que certo tipo de roupa "está na moda" e isso faz da moda um meio de uniformização, garantindo estabilidade social. Nessa perspectiva, moda é imitação. No entanto, esse conformismo é temporário e logo é substituído por uma nova tendência. 

Jean Cocteau define moda como uma rápida epidemia que força pessoas diferentes e diversas a obedecer a uma mesma ordem misteriosa, a submeterem-se a novos hábitos que contradizem seus velhos estilos de vida, até o momento que uma nova ordem surge e os faz virar a casaca mais uma vez. 

Moda também pode ser usada como forma de distinção social, por meio da qual um grupo irá afirmar sua diferença. 

Surge, então, um paradoxo: a moda é uma forma de estabilidade e instabilidade, uma forma de pertencer a um grupo ou de se destacar.

Moda como linguagem
A moda está intimamente ligada a roupas, no entanto não pode ser confundida com elas. As roupas possuem características que são irrelevantes pra moda. Roupas são produtos técnicos, criados conforme necessidades funcionais como proteção do corpo e cobertura, já a moda não está muito preocupada com funcionalidade, importando-se mais com seu lado simbólico. Nesse sentido a moda pode ser como uma linguagem, através da qual se faz afirmações. Roupas, pinturas, fotografias, filmes e outros intrumentos têm sido essenciais para estabelecer a roupa como uma forma de expressão. 

Moda e consumo
Finalmente, a moda é um negócio, uma indústria. Seu produto é um adorno para o corpo e um objeto imaterial com valores simbólicos.

Todos esses conceitos são aprofundados ao longo do curso. Por meio da sociologia, filosofia, psicologia e antropologia serão estudados conceitos e teorias para compreender a moda em seus mais variados sentidos.

Eu sabia que moda não estava relacionada apenas às roupas, porque percebia que ao longo do tempo estilo de carros, casas, estilo de vida e quase tudo que não é ciência muda constantemente. Mas não conseguia entender como que toda roupa não é moda, mesmo as meramente funcionais, ou as roupas da pré-história. Eu escolhi a foto da Billie Eilish porque acho que ela representa muito o estilo moderno na música, nas roupas, cabelo, beleza... ela representa um estilo novo que não tínhamos visto antes. Que logo será substituído.

Dançando com a Cher na quarentena

Nesse momento em que tenho que ficar em casa e não posso fazer as atividades físicas usuais como caminhar até a parada do ônibus, ficar em pé no ônibus, trocar de sala na faculdade, andar no shopping por horas a fio, ir no mercantil, ir à pé pra loja da Melissa ver as novidades e por aí vai (como diria o querido Marival), meu corpo está implorando por movimento. Sempre fui sedentária porque minhas atividades laborais sempre são sentadas, e a minha principal atividade recreativa (a.k.a internet) também. Não gosto de esportes, academia ou caminhada sem destino, então nunca fiz nada.

Tem um artigo na Rookie de 2013, "exercícios para não atletas", com várias dicas de atividades que movimentam o corpo sem necessariamente precisar que você use o ridículo sportwear. Das atividades recomendadas, minhas favoritas são a dança e areóbica. Até fiz algumas vezes, mas não sou muito boa de dança, então não vi muitos resultados. 

Até que encontrei o vídeo Cher Fitness - Hot Dance, gravado nos anos 90, em que ela faz um workout completo com uma de suas coreógrafas, vestindo um look do Bob Mackie. É o máximo! 
Parece que várias pessoas estão fazendo esse exercício na quarentena, vi a dica no twitter. O truque que eu tenho usado é: coloco o vídeo no mudo e escuto uma playlist no Spotify, pode ser flashbacks ou hits dos anos 2000. Fico mais empolgada cantando as músicas que gosto, é como se eu estivesse apenas dançando, mas uma dança que mexe com meu corpo todo. (Fico aqui imaginando como as pessoas consegue dançar a noite inteira numa balada... de salto!)

Os resultados são muito bons! Dava pra sentir o sangue correndo e meu corpo esquentando, suando e cheio de energia, algo que eu, sentada há anos, não sentia há muito tempo. No primeiro dia quase morro, não consegui fazer muita coisa, tudo doía. Mas da segunda vez até que não tive tantas dificuldades, porém meu coração bateu como se eu estivesse apaixonada e achei que ia ter um pire-paque, tive que descansar duas ou três vezes. No fim eu não fico mais disposta como as pessoas falam, fico derrotada. Maaaas, meu humor melhora bastante, não tenho ficado apática como antes.

Li alguma matéria recentemente que dizia que é importante se exercitar pelo menos três vezes na semana, por pelo menos 30 minutos. Estou fazendo a dancinha dia sim e dia não, e minhas plylists já estão acabando D: Obrigada Cher 💞

20.5.20

"E eu lá sou mulher d fazer back up? Perdi tudo, foda-se eu."
- Rita Lee, muito sábia

a salinha

Mecca James-Williams é um estilista de Nova York que eu conheci em uma matéria do Man Repeller. Não gostei tanto assim do estilo dela, mas amei a salinha da casa dela porque é do jeito exato que eu queria ter na minha casa. Tem aconchego, muitos livros, revistas e luz natural. 
wishlist
- um sofá super aconchegante e enorme
- mesa de centro comprida com livros de arte
- estante com livros e revistas (ah. my dream)
- puffs
- espelho
- plantinhas