12 junho 2018

A coleção que não vira lixo

Tenho uma tia que possui uma pasta já destruída pela quantidade de coisas que está dentro dela. É uma pasta catálogo, daquelas com saquinhos, em que ela colocou estudos sobre educação, pedagogia, infância, psicologia e tudo mais. Tem também testes e atividades infantis que vez ou outra ela usa com seus pacientes.

Provavelmente o que me chama mais a atenção nessa pasta que ela fez é que demonstra, fisicamente, uma pequena parte de tudo que ela já leu. E a forma destroçada, grande e pesada da pasta é ainda mais impactante porque ela não tem apenas uma pasta cheia de estudos sobre o que ela gosta e trabalha, mas é uma pasta que não aguentou a quantidade de material dentro dela e precisou se expandir. Eu adoro a ideia de expansão, acredito que devemos sempre nos expandir e nunca definhar ou permanecermos na mesma forma, acredito que temos a chance de irmos além.

Há a possibilidade de ela ter colocado na pasta textos para ler depois. Mas eu tenho certeza que não, seu vocabulário rico, sua maneira ágil de pensar e a forma sagaz com que ela interpreta tudo além do que se apresenta, me faz ter certeza que ela não nasceu sendo essa mulher inteligentíssima que admiro muito. Ela mesma se moldou. E gosto de olhar pra pasta porque consigo vê-la lendo algo, achando o máximo e colocando na pasta.

Armazenar roupas, itens decorativos, coleções, objetos de entretenimento ou até arquivos no computador parece sufocante hoje em dia, porque a internet nos mostra que a quantidade de coisas a que temos acesso não significa nada, porque se não usamos não serve para nada. No etanto, quando lemos ou estudamos é como se o conhecimento não fosse uma série de arquivos guardados no depósito do nosso cérebro, mas um amontoado de células que forma quem nós somos. Eu tenho certo pavor em guardar coisas demais, objetos guardados me dão uma sensação péssima de que eu só estou estragando esse planeta tão lindo que amo. Mas a ideia de armazenar os estudos e opiniões de outras pessoas que tenham contribuído para formação de quem eu sou e de como eu penso (e me torne também capaz de realizar estudos e tecer opiniões), é realmente fascinante.

Não é como uma pasta cheia de documentos que eu jamais vou precisar que só servirão para encatamento das gerações futuras (o que não é de todo ruim), mas é uma pasta única especial que alguém preencheu com textos conforme eles iam ensinando-a.

Não é emocionante ver alguém fazer citações? Ou fazer conexões e relações de assuntos aparentemente distintos? Proque provavelmente um texto que está no começo da pasta pode fazer total sentido, ou mudado completamente, depois da leitura do que está lá no meio.

07 junho 2018

Quando o herói cresce

Logo que conheci a Tavi e virei fã, eu não entendia nada de moda, não sabia ler o que ela escrevia no blog, e demorei para entender o que era a Rookie. Para alguém que lia Capricho como eu, ver uma menina da minha idade ser tão diferente (e gostar disso) e ter senso crítico, foi bem chocante.

Quando eu finalmente entendi como ela era importante para o mundo da moda e como eu também gostava desse universo, comecei a pensar como era viver tudo aquilo. Em uma entrevista de 2017, ela conta como era chocante voltar pra aula de matemática horas depois de uma fashion week.

Parte da imagem fantástica que temos dessa menina andando nesse mar de pessoas mesquinhas e egocêntricas, é a questão de ela chegar em um lugar sendo o centro das atenções. Tem inclusive uma foto que eu acho ótima em que ela, bem , está com um salto ENORME olhando para uma estilista, como se fosse uma mini pessoa, mas com o olhar de quem não se sente inferior. Ela conta que as vezes sentia que todos falavam dela, mas hoje não se importa em compreender sobre essa fase, até porque não lembra muito.

Essa diferença entre mundos acabou quando ela se mudou pra Nova York, porque finalmente ela já tinha a mesma idade de todas aquelas pessoas e quase sempre preferia estar com seus amigos (que conheceu graças a moda). Como sempre vejo fotos dela em lançamentos, eventos e estreias, imaginei que a Tavi como uma típica nova iorquina de cinema super ativa. Estilo a Lindsay Lohan naquele filme em que ela tem sorte. Mas ela diz na entrevista que acha péssimo perder tempo com coisas que não gosta, e que acha ótimo o tempo ocioso de ficar sozinha e não fazer nada, porque aí ela pode se esforçar naquilo que gosta. Eu também. Por isso, mesmo gostando de sair e tudo mais, ela prefere ficar em casa. Eu também.

Acredito que esse pensamento muda com o tempo, que não é um traço forte da personalidade, que somos animais mudando conforme as condições do ambiente, então é possível que hoje ela pense diferente. Quem sabe.

O entrevistador pergunta se quando ela fica em casa não pensa que está perdendo algo... Isso é um dilema para mim. Fiquei decepcionada, e feliz também, ao saber que ela lida bem com isso, que não vê problema em perder algo. Provavelmente f.o.m.o. é uma sensação de quem vive muito na internet consumindo e produzindo pouco, o que não é o caso dela. Ela conta que quando vivia experiências incríveis quando era mais nova, a volta para casa sempre fazia ela pensar que nada daquilo aconteceria de novo, mas depois ela entendeu que aquele mundo sempre estaria ali. É como se não tivesse o que perder, como se sempre estivesse acessível de alguma forma.

Ela diz que nesse mundo de adultos, nunca sentiu medo, mas está esperando falhar. Para ela, os únicos artistas que estão sempre avançando são aqueles que são supercontrolados e possuem uma equipe enorme. Mas os artistas que estão interessados apenas em seguir aquilo que gostam e em fazer um bom trabalho, inevitavelmente irão falhar. Citando Maggie Nelson ela diz que nas aulas de dança é ensinado a testar seu equilíbrio para saber em que ponto você cai, só assim você descobre sua zona de equilíbrio. Observar seu trabalho e identificar as falhas é essencial para saber em quais áreas não se é tão bom e poder evoluir.

Ela e a Petra uma vez falaram sobre o processo de amadurecimento do trabalho de cada uma, já que começaram bem novas. Acreditava que como elas tinham um registro tão bonito e aclamado, não teria espaço para aquela vergonha que sentimos quando vemos antigos trabalhos. Mas elas sentem, e acha bom acha-los tão ruins, porque significa que houve crescimento. Por gostar do que faz, e fazer por prazer, nem sempre tem algum propósito, então muitas vezes não há que se criar expectativas.

Adoraria saber se ela gosta de dar tantas entrevistas, e de sempre ser perguntada sobre as mesmas coisas sobre sua adolescência atípica. Acredito que deve ser um pouco desumanador (no sentido de se tornar algo além de uma pessoa) ser tão questionada e falar tanto sobre si mesma a tantas pessoas e tantas vezes, talvez ela perca algo de si por já ter várias respostas sobre si.

Minha heroína tem a minha idade, mas mesmo eu me identificando muito com ela no que é ser adolescente, ela cresceu muito mais rápido do que eu.  Hoje, me questiono se ela se sente mais adulta do que eu me sinto. Me sinto muito pouco, inclusive.

» At Sundance, Tavi Gevinson Grows Up (A Little), por Sam Fragoso para Vogue. Janeiro 2017.

26 maio 2018

amanhã serei mais rápido

A trilha sonora de Submarine é mais linda do que o filme. Acho que as produtoras de hoje se matam pra tentar fazer um filme com a mesma estética e com uma trilha sonora tão boa, com o próprio Alex Turner. Talvez hoje o Alex Turner seja uma grande cantor que agrade a galera e que não esteja no patamar de gênio da música, mas ele tem uma enorme contribuição na música da atualidade. E o álbum de Submarine parece que só poderia ter sido feito pr alguém que consegue envolver as massas dessa forma, mesmo sendo totalmente diferente das músicas que ele faz normalmente. Eu amo esse cd, mais do que o filme.

As músicas revelam diversos sentimentos de uma pessoa sozinha, não no sentido negativo, mas o bônus de aproveitar a própria companhia. O momento em que se navega nos próprios pensamentos, a contemplação, a abstração que a imaginação permite. E não é nada triste. [quando eu era criança achava que toda música lenta era música triste].

Veio na minha cabeça outras músicas que são parecidas. O álbum do Little Joy é tão fofo e divertido ao mesmo tempo, que parece falar da infância, de um jeito que não é infantil nem óbvio demais. Escolhi as músicas que mais se pareciam com Submarine e coloquei numa playlist, junto de outras músicas do Rodrigo Amarante. Por fim, as músicas do Canções de Apartamento, do Cícero, porque é sobre algém na sua própria casa, que é o self.

Conheço outras músicas que têm o mesmo estilo, o mesmo ritmo, mas que falam de amor, de solidão de verdade, em que a letra pesa muito, como as do Marcelo Camelo. Não é uma playlist para solidão do coração partido, mas para saber estar sozinho. Imagina, se eu colocasse a playlist com o nome "como ficar sozinho" ela ficaria triste, de repente.

É uma lista de músicas sobre o submarino que entra dentro de nós.

» Playlist no Spotify.

19 maio 2018

Fichas

Em 06.09.2017 eu estava no 5º semestre e pensando em novas forma de estudo e métodos de fichamento. Eis:

» Faço as fichas no computador ou no caderno?
Bem, o objetivo é eu fixar o conteúdo e não ter uma biblioteca. Até hoje meus cadernos pequenos foram funcionais, posso continuar a usá-los pra fazer resumos (não gosto de cadernos grandes). 

O caderno servirá pra fazer anotações, esquemas, resumos... tudo no estilo de fichamento. Posso até decorar tudo! 

» Usar um esquema de índice
Fazer um índice no início de cada caderno organizando as anotações por página e data. 

» Fichamento didático
No Google Docs farei um resumo no final com o conteúdo das pesquisas anotados no caderno. 

A formatação pode ser no padrão da Abnt. 

No início coloco as informações principais, depois um esquema e por fim meus apontamentos

» Divisão de conteúdo
Fazer primeiro um índice esquemático do que será estudado no semestre. 

Estudar nos primeiros períodos o que foi visto na semana. No segundo período rever o conteúdo perdido. No terceiro período fazer o fichamento didático. Pode ser até no Wordpad, pra não se bagunçar com a internet. 

» Método
Ler o livro por uns 25 minutos, marcando as partes principais. Marcar com asterisco as palvras a serem pesquisadas. Com isso, organizar as ideias no caderno!

Em 30.10.2017 eu me rebelei contra a internet e achei que só deveria esudar pelo caderno.


» Revisão
A ideia é revisar o conteúdo visto na semana. A revisão deve ser feita por meio de esquemas e resumos no caderno. O resumo vai ser estruturado em tópicos, com explicações. 

» Livros
Os livros serão os da biblitoeca. Nào usar da biblioteca digital. Comprar códigos pra não ter que olhar na internet. 

» Método
Qual o assunto dado na semana? Procurar esse assunto no índice do livro, ler e marcar as informações principais. Depois, colocar o esquema no caderno com comentários do autor. Seguir a ordem cronológica. 

No final, fazer revisão mental do assunto. Não usar canetas coloridas! Evitar perfeccionismo. 

Não fiz tudo isso, mas pensando bem, acabei incorporando essas ideias inconscientemente ao meu método atual que tem avançado e se mostrado eficiente. Continuei usando o computador porque escrever é muito cansativo pra mim, mas tenho me controlado mais no quesito navegar na internet. Apesar de eu não tirar as melhores notas, eu sinto que tenho aprendido muito mais.

16 maio 2018

O modelo

Na biblioteca da faculdade tem várias revistas profissionais do curso de moda. Em geral, eles trazem explicações sobre as coleções apresentadas recentmente, quais os tecidos mais usados, as cores principais, as peças mais importantes... e qual o sentido desses elementos juntos. Além disso, algumas revistas trazem também alguns quadros em que relacionam fotos das roupas com outros elementos de arte, cor, objetos etc, que possam expressar uma ideia para o estilista. Imediatamente me lembrei da Tavi. É exatamente o que ela fazia.

Lendo um de seus posts antigos, em que ela faz um quadro com referências de estilo para o inverno de 2009, eu tentei olhar com outros olhos. Se ela não era estilista, nem trabalhava com moda, então qual a finalidade dos moodboards dela?
"collages of Fall inspiration"
Ela "divide" a moda por estações, como era antigamente, antes de ter uma coleção pra cada mês. Antes tinha só roupa pra se agasalhar e roupa pra curtir a natureza. Eu tento, mas nunca, nunca, encontro clima prorpício pra usar roupas mais quentes. Então, para acabar com a agonia de se vestir e ficar horas pensando qual combinação de peças vai me fazer morrer de calor, e qual vai me deixar alegre com o sol, as inspirações de verão são muito úteis.
"This one is about greens, browns and pinks."
Ela relaciona as imagens por cores. As cores predominantes são um elmento importante, porque, por exemplo, meu estilo é composto majoritariamente de preto, azul rosa e vermelho. Provavelmente porque eu acho que preto combina com tudo, mas também porque acho mais elegante. Mas principalmente porque eu vejo outras cores pra variar. Quer dizer, porque não tenho nenhuma roupa verde? Identificar uma relação entre as cores de estação pode revelar o espírito, o tom.
"Sweaters, mixing of prints...carpet patterns"
As peças mais usadas exprimem conforto, extravagância ou forma, quem sabe. As estampas são uma das partes mais legais, porque são os desenhos, é o que se quer contar.
"Really good inspiration for wearing my..."
Essas referências servem pra mostrar um novo jeito de vestir coisas que já se tem, uma nova forma de ver a moda, de observar a história, a sociedade, o momento. Quer dizer, em 2005 era mais fácil ver vestidos mostrando partes do corpo, ou mais curtos, para corpos muitos magros. Hoje, apesar dos movimentos, tudo está tão coberto!

Sempre vejo coisas que gosto, mas acabo deixando passar. É tudo rápido demais, e o Pinterest acaba com o sentido e o contexto das coisas. Acho que se eu salvasse  que gostasse, fizesse comentários e depois relacionasse o que tudo isso tem a ver, eu poderia criar um senso crítico tão foda que nem o da Tavi. Quem sabe. Uma caixa digital de Joseph Cornell.

» "we don't want no old people dying all up in our boat", da Tavi.